Por que repensar a precificação de seguros no Brasil?
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O setor de seguros no Brasil está passando por uma transformação significativa. Em 2023, a arrecadação de prêmios superou R$ 663 bilhões, segundo a CNseg, e as projeções indicam que esse crescimento de dois dígitos deve continuar nos próximos anos. Mas essa mudança não diz respeito apenas ao volume. Ela mostra como as seguradoras estão repensando a forma como operam, especialmente no que diz respeito à precificação.
Com um mercado cada vez mais digital e diverso, cresceu a pressão para responder com rapidez e oferecer produtos personalizados. Coberturas sob demanda, apólices customizadas e expectativas mais altas por parte de consumidores digitais já fazem parte do novo normal. Ainda assim, muitas seguradoras continuam dependendo de processos antigos e ferramentas manuais para construir e atualizar seus modelos de precificação.
Hoje, muitas seguradoras ainda utilizam planilhas como principal ferramenta para construir seus modelos de precificação. Segundo pesquisa acadêmica da UFPB e estimativas internas baseadas em conversas com o mercado, mais de 60% das seguradoras no Brasil seguem utilizando planilhas ou scripts fragmentados para modelagem. Isso dificulta o controle de versões, o rastreamento de alterações e a implementação de uma governança consistente entre equipes.
O Marco Legal do Seguro (Lei 15.040/2024), publicado em dezembro de 2024 e com entrada em vigor em 11 de dezembro de 2025, representa a maior reforma regulatória do setor em 60 anos. A lei estabelece novos padrões de transparência, exige linguagem simplificada nos contratos e reforça a responsabilidade técnica em todas as etapas da precificação.
Nesse novo cenário, não há mais espaço para modelos opacos, alterações não documentadas ou decisões sem justificativa clara. A precificação deixou de ser apenas uma tarefa técnica. Hoje, ela está diretamente ligada à conformidade regulatória e à construção de confiança com o mercado.
A SUSEP, órgão regulador do setor, reforça a importância da transparência na precificação e da governança técnica como prioridades regulatórias. A agenda regulatória para 2025 exige justificativas documentadas, segmentações explicáveis e processos de modelagem bem estruturados. Os boletins mensais estão mais detalhados do que nunca. A transparência deixou de ser um diferencial e passou a ser um requisito básico.
Essa mudança aproxima o Brasil do que já se espera internacionalmente em termos de governança de modelos. Em mercados de seguros como Europa e América do Norte, os modelos de precificação precisam cada vez mais incluir controle de versões, documentação e lógica explicável como parte da gestão de risco. Esses princípios de governança também estão se tornando o padrão no Brasil, conforme aumentam as exigências regulatórias.
Hoje, não basta mais chegar à resposta certa. É preciso mostrar como se chegou até ela, com histórico de versões, lógica transparente e documentação que possa ser compreendida tanto por equipes internas quanto por órgãos reguladores.
À medida que os modelos de precificação de seguros se tornam mais sofisticados — incorporando dados comportamentais, geográficos e de terceiros — eles também se tornam mais complexos de interpretar. No entanto, a complexidade técnica não isenta as seguradoras da obrigação de transparência. A SUSEP exige que as seguradoras expliquem claramente cada decisão de precificação, incluindo quais variáveis foram utilizadas, como os segmentos foram definidos e quais premissas foram adotadas.
Exemplo prático: em um modelo legado baseado em planilhas, uma mudança em um fator de tarifação pode passar despercebida, sem registro de quem a realizou, quando ou por qual motivo. Em um ambiente com governança estruturada em seguros, essa mesma alteração é documentada, justificada, versionada e auditável — garantindo clareza para a regulação e segurança para a operação.
Este é um verdadeiro ponto de virada no mercado de seguros brasileiro. A precificação atuarial deixou de ser responsabilidade exclusiva da área atuarial e passou a conectar modelagem técnica, estratégia de negócio e conformidade regulatória. Ter sucesso nesse novo cenário exige mais do que tecnologia avançada: requer um ambiente colaborativo onde atuários, gestores de produto e equipes de compliance possam compreender, questionar e aprimorar os modelos em conjunto.
O setor de seguros no Brasil deve representar 6,4% do PIB até 2025, com crescimento expressivo nas linhas de vida e danos (CNseg). Esse ritmo de expansão demanda inovação e agilidade, mas também solidez e confiança no longo prazo.
Revisar a base técnica da precificação é essencial para se preparar para esse novo momento. Isso vai além de atualizar modelos: significa adotar uma cultura que coloca governança, rastreabilidade e explicabilidade no centro do processo decisório.
A precificação não se resume mais a prever resultados — trata-se de gerar confiança no processo que levou a eles. As seguradoras que colocarem a transparência no centro de seus processos de precificação não vão apenas acompanhar as mudanças regulatórias: estarão liderando a transformação do mercado de seguros no Brasil, com mais credibilidade e alto desempenho.
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